Sábado, 17 de Dezembro de 2011

Scriptorium



Luz evanescente
e dor
       a duas lágrimas

como uma efígie

morada de orlas dispersas
                                       de amorfos ângulos
                   de corredores ambíguos.


Senhor, de quantas lágrimas padecerá o rosto
que de estranhas páginas se assombrou
e de torcidas cordas
                           se firmou,
        dissolvendo?


À demolição dos dados,

centenas de vozes te ciciam
legiões de lendas se inclinam
murais de chumbo me adiam

como pesados mantos, flutuando,
arrancando, do corpo, 
       meu lamento


Profanadas vozes
cinzentas brasas
        mosaico extinto

mil flâmulas se desintegram do rosto
em convulsão

entre a ascensão das heras
e  blocos de mármore mortiços

como desfigurados palcos
                                         a duas vozes
           enchendo de ângulos
                                            o cordel.


Imagem: Scriptorium by Sophie_G

Terça-feira, 1 de Novembro de 2011

Mimesis



Foi do centro da fraga
que transbordara o rumor
                                 do mundo

      fomentando
                         fecundando

                                       o meu solo

na concha das mãos
nas raízes
  no ventre

ou na escuridão.


A confissão trémula
   dos lábios
           principiara a ceder

as horas flutuaram
                        densas
sobre a claridade dos vales

e a sua Voz, toldada,
assumira a forma de um ponto

enquanto a luz circundava o corpo
num só gesto inicial
sustentando a abóbada nos seus arcos
como pautada página
curvada nos céus.


Foi do interior da lava
que brotara a matiz
                       do mundo

firmando sumptuosa
                       ardentemente
             a sua senda

num clarão disperso
                      numa ruína
na ascensão da chama
    na combustão.


Um dia mais
 e da fraga surgiria a forma
      de uma onda

onde as palavras se estendiam
           como vozes
        
pelos vales
na claridade dos lábios
  sobre a matiz dos céus.



Imagem: Génesis - microcosmos

Sábado, 3 de Setembro de 2011

De Profundis

«No princípio, do princípio, vos conto,

   informe era o dia
                vazia a vontade
                            negra a sentença

   Como este odor a terra
esta cor sem sonho
                                           este gelo de aço

    Onde o Corpo,
        longe de se entregar,
                                                 se anunciava
                                 sob as águas
     Entre fechados círculos
entre incontornáveis vozes.»


Cobri-me de ti
                      sobre fráguas
ante as planícies

quando o sol rasgara a sombra
                                      em chamas

por onde os corvos se cruzavam

estreitando a luz nos meus braços
como um Incorpóreo traço teu.


«Do silêncio, vos confesso
                                   nascera o Som

   Calidez de voo sobre árvores
rumor tingido pelos céus
   centelha acesa pelo corpo

   Como desperta clave entre os lábios
   sustendo, em sopro, o cordel.»


Não sentir outra face no rosto
para além da tua, em abandono,
                                              nas palavras
a que a vento nos votou
                                em ciclos
em inacabado alento.


«Do amor, vos conto,
                               transbordara o Sonho

   nitidamente tomado pelas tuas mãos

   entre a arcada antiga de um regresso meu
   e o teu corpo, inteiro,
      em meia escuridão

   sob um desejo que reluz, antigo,
   entre lances de lava
   em queda.»


Alcançar-te,
discorrer nas areias das fragas
                                      o teu nome

deixar que as veredas de fogo
                                           se consumam
em outonais impressões de um momento

e escutar-te
entre inaudíveis horas
como face de uma face por escrever.


«De verdade, de verdade, vos digo,
se erguera a Voz

   Calidez de voo sobre águas
      rumor vertido pelos corpos
   desígnio alçado pelos céus

   Como desperta clave entre os lábios
   despertando, em sopro, nosso Tempo.»


Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011

Natura Morta


Duas  pala vras

e um desejo rompendo os meus olhos
    invisíveis

cada uma delas soletrando um tumulto
                                                                       fechado
inexplicavelmente trancado sob vidros.


São opacas as formas que te reflectem
em evanescentes sons

São evanescentes as fracções
                                         do tempo
                      que nos restam
como apagados nós


Vim sem palavras
rente ao torpor das folhas
atravessando a memória com os seus suspiros

caminhos dispostos sobre lágrimas
                                        retalhos de asas
                negras superfícies.


Vim sem promessas
                       de carcomido rosto
de arruinado corpo

dobrando-me, arrastando-me, sob vozes
pelos verdes mortos
                  por embaciadas ruas.


Duas  lágri mas

e um espelho rachando o meu rosto
                                                                    aturdido

cada uma delas projectando as exaustas fórmulas
onde ainda, sobre fogo, nos fundíamos

        tombados,
                     quase esquecidos

como o fim do vento que uma noite cingiu
o instante.


Imagem: Natureza Morta de Caravaggio (modificada)

Domingo, 26 de Junho de 2011

Grave con Brio


Canto o corpo morto
                               o vazio do rosto
                uma paixão incerta
     intransigente

e antes que se desprenda a voz
e se afogue o corpo,
                               regresso
                                               aos teus lábios

como se alguém, rompendo, rasgasse
      o vazio
e na passagem das vozes
me fechasse na memória

proclamando o teu nome infindo
compondo um Deus abandonando o espaço
    vazio
  da espera.


Foi quando o verso se tornou fado
                                          fardo do meu caminho

que um fosso se abriu
      no meu Canto

                         despoletando
no poema         
              como Voz

«Trazei, no punho, a espada
com que devastais, em cercos,

       eco de nocturnas harpas
       reflexo de desgastadas vestes

       sorumbático corpo
                                  sem chama

suma glória
                 sobre vago tempo»


Canto a branca treva
                               a fremente névoa
esta terra de ninguém

silhuetas sobre planos dispersas
inegáveis histórias
inseparáveis tramas.


Foi quando o verso se tornou fado
                                          fardo do meu caminho
que te tomei como Deus,

                               pronunciando
                em canto        
 a tua voz.

25/06/11

Imagem: by Ulita

Terça-feira, 7 de Junho de 2011

Mare Tenebrarum


Ao se abrirem os sulcos da noite
em silêncio rezara por ti

E do corpo nascera a pausa
a raiz de desmaiadas folhas
                                   a pálida chama
                                                      a dança urgente.


Da palavra errei o tempo
do tempo cessei o espaço
do corpo retive a chama

Memória de teu rosto esquivo
                                        como sede inglória
                       entre as mãos.


Ao se espalharem os primeiros vultos de água
em silêncio gritara por ti

Escrevendo em sangue e fogo
procurando nas frases
                              um apelo
como um rosto que se alonga em lágrima
como um segredo que eclode e devasta
como um coral de pedra erguido
                                           movido
                      entre mares
       suspenso.


Nas veias, o culto secara
uma voz que não ouve padecera
todos os fogos do corpo
                               flutuaram
e todas as cadeias de olmos
ensombreceram.



Ao se abrirem os últimos sulcos das eras
principiei a sentir um temor

Sentindo os rostos hostis e mortificados
            dos mármores
que, ao silêncio, ensimesmado,
                                         me prenderam

quando, em silêncio, apoquentado gritei

                                quando, em silêncio, rezara por ti.



Sábado, 14 de Maio de 2011

Fiat Lux


Momentâneo desejo de ser ave
                                           rompendo
                                    os céus
                  C
                      a
                         e
                              m
                                    as lágrimas presas
                no meu rosto.

      Imaginárias formas suspensas
                                           em pedra
trespassando de dor
                             em espanto
               o corpo.


 (A sombra acertou o compasso
                                          acercou-se do passo
                                                                    desfez-se sem fim)


Arco após arco,
                  o pêndulo rasga
o tecido nefasto das Eras

Onde o tombar de um fósforo
fende as gravuras vazadas
                                nos escombros.            


Voguei contra o véu
                          e contra ti
e já não sou página ou memória
de um lamento

    Sou fragmento de névoa
                               Teu pó de areia

Iniciado sopro de um círculo
                                      incompleto
      Como fogo inquieto
                               irrequieto
                     irrepetível.


(Por que subir as escarpas tensas
                               vacilar nas escadas baças
                                                           tombar, no solo, em vão?)


Arco sobre arco,
                       o pêndulo rasga
o desígnio secreto das Eras

Onde o tombar de um fósforo
acende o decurso trancado
                                        num Ponto.


Imagem: Emotional Flame by Ihdar Nur ; Dadank